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BoJack Horseman: a imagem do anti-herói

Introdução

BoJack Horseman é uma série de animação da Netflix criada por Raphael Bob-Waksberg com seis temporadas lançadas entre 2014 e 2020, totalizando 76 episódios de aproximadamente 20 minutos cada. BoJack Horseman é um cavalo alcoólatra e viciado em drogas que foi uma grande estrela de televisão nos anos 90. Agora, ele luta para se manter relevante na indústria do entretenimento enquanto lida com suas carências e demônios internos. Neste artigo irei analisar a construção da personagem anti-heróica e a representação do conceito de duplo ao longo da primeira temporada. Ao longo destes 12 episódios fica claro que a série cria uma jornada do herói invertida. A busca profana da BoJack serve somente aos seus desejos egoístas, sem a possibilidade de redenção ou transformação.

Trama e Elenco

Numa tentativa de tornar-se relevante e ser amado novamente pelo público, BoJack começa a escrever suas memórias, mas como é incapaz de completar sequer uma página seu editor o obriga a contratar Diane Nguyen (DN), uma jovem escritora de origem vietnamita que se torna sua biografista e novo interesse amoroso. Para desespero de Bojack, Diane já está compromissada com Mr. Peanutbutter (MP), um homem-labrador sempre alegre e otimista que também fez algum sucesso na década de 90 interpretando um pai solteiro que cuidava de duas crianças. BoJack tem um relacionamento amoroso conturbado com sua agente, Princess Carolyn (PC), uma gata siamesa rosa que apesar de ser viciada no seu trabalho, sonha em ser mãe e criar uma família. O sofá de BH é habitado pelo estranho Todd Chavez (TC), um jovem humano desmotivado e desempregado que sempre se encontra nas situações mais farsescas e absurdas. Herb kazzaz (HK) é o criador de Horsing Around e um antigo amigo de BH, demitido do seriado por conta de um escândalo envolvendo a sua homossexualidade e Sarah Lynn (SL) é a ex-atriz mirim que interpretava o papel de filha caçula em Horsing Around, tornando-se posteriormente uma cantora e sex symbol que atinge a decadência ao completar 30 anos.

O Princípio Heróico

Para compreender a natureza do anti-herói antes se faz necessário compreender o conjunto de características essenciais que permite denominar um dado personagem como herói. Esta identificação é crucial, visto que o anti-herói nada mais é do que um personagem que de alguma forma nega ou deturpa a condição heróica. 

Na tradição clássica, o herói é todo personagem que exerceu uma determinada influência sobre os homens e os acontecimentos históricos. Seus feitos são tão grandiosos que o herói se eleva acima dos seus semelhantes e aproxima-se dos deuses, merecendo depois de sua morte uma veneração e um culto particulares (Schmidt, 1985. 141).  Além disso, os heróis das tragédias gregas eram personagens de alto nível, pertencentes à nobreza e quase sempre com algum parentesco com os deuses. O herói trágico é mítico ou inacessível, suas ações são exemplares e seu destino é livremente escolhido.

Ao longo da história, o termo continuou a ser usado para denominar personagens que executam ações extraordinárias, atraindo a admiração do espectador e provocando a sua catarse, ou, caso o personagem não seja capaz de tais feitos, o termo ainda assim é usado para indicar a personagem que recebe a cor emocional mais viva e mais notável (Pavis, 2011. 193). Neste sentido, o termo torna-se sinônimo de protagonista, sendo aquele personagem que mais inspira a empatia do público e do qual emprestamos o ponto de vista para vivenciar a narrativa. 

Joseph Campbell, ao longo prólogo de “O Herói de Mil Faces” cria a ideia de monomito baseado na estrutura dos ritos iniciáticos e delineia um herói mítico universal que atravessa este processo amplamente conhecido como a jornada do herói. O autor analisa a mitologia clássica, cristã, budista, contos de fada e folclóricos, traça semelhanças entre elas e relaciona seus aspectos narrativos com conceitos da psicanálise, principalmente a análise dos sonhos Freudiana e a teoria dos arquétipos de Jung. Para Campbell o herói mítico é aquele capaz de submeter-se voluntariamente a um princípio de morte ou à uma morte simbólica, acessando assim o mundo do inconsciente, habitado por imagens arquetípicas de grande poder (Campbell, 2008. 11). O acesso a esse universo interior é capaz de revelar imensas potencialidades e autocontrole, de forma que o herói renasce simbolicamente trazendo consigo algum tipo de chave, um presente para a humanidade, tal como o fogo trazido por Prometeu da terra dos deuses. Este princípio de morte pode ser traduzido também como um profundo mergulho introspectivo que ativa alguma habilidade dormente no herói. Esta permite que o herói, agora regenerado, resolva o problema em questão trazendo à vida cotidiana alguma forma de salvação.

  A partir das observações feitas nos últimos parágrafos é possível enumerar cinco fatores que sintetizam as características essenciais ou condições que ao longo de séculos tem  caracterizado os heróis, características que unidas formam o que eu chamo de princípio heróico:

  1. Fator Social: o herói destaca-se entre as pessoas comuns e geralmente  pertence ao mais alto nível de sua sociedade.
  2. Fator Moral: o herói escolhe livremente seu destino e realiza ações admiráveis e exemplares, servindo como norte moral para o espectador.
  3. Fator Altruísta: O herói favorece o interesse coletivo em detrimento de seu interesse próprio ou da sua própria vida.
  4. Fator Narrativo: o herói é o personagem central, mais empático, cujas ações levam à resolução do problema e à catarse do espectador.
  5. Fator Ritualístico: o herói submete-se a um processo iniciático no qual vivencia uma experiência de morte e renascimento para resgatar uma habilidade ou conhecimento sobre si próprio, a fim de resolver o problema em questão.
Erro e redenção

Apesar de ser admirável, o herói não está livre de cometer erros e falhas de julgamento. Na tradição clássica, o erro cometido pelo herói não só é aceitável, mas fundamental para a criação de uma tragédia bela. Para que a composição da mŷthos seja complexa e que esta seja mimética de terrores e compaixões esta deverá “mudar não da má fortuna para a boa, mas o contrário, da boa fortuna para a má, não por perversidade mas por causa de um grande erro” (Aristóteles, 1453a). A este grande erro os gregos chamavam por hamartia, atitudes equivocadas que levam a catástrofe, uma forma aguda de desvio praticado de forma involuntária, impensada ou mesmo inconsciente.

 Édipo, herói trágico por excelência, comete duas infames hamartias: mata o pai, Laio, e desposa a própria mãe, Jocasta. Ambas as ações são resultadas da ignorância de Édipo sobre a identidade de seus verdadeiros pais. Na versão de Sófocles, anos depois destes acontecimentos uma peste assola a cidade de Tebas. Édipo, que já reinava a cidade ao lado de Jocasta, consulta o oráculo e descobre que a peste só cessará quando o assassinato de Laio for vingado e o assassino expulso de Tebas. Após um inquérito minucioso, ocorre a revelação e Édipo é confrontado com a confirmação da sua maldição, já prevista pelo oráculo de Delfos anos antes. Tomada pelo horror daquela revelação, Jocasta se enforca no interior do palácio. É então que Édipo realiza a ação trágica e cumpre de forma suprema o princípio heróico. Ele sabe que para livrar a cidade da peste é preciso vingar a morte de Laio e exilar o assassino, sendo assim ele se cega com um alfinete, consumindo a vingança, e exila a si próprio, condenando-se a vagar como um pedinte. É importante destacar que Édipo era o rei de Tebas e que este seria capaz de seguir reinando, o que de fato ocorre no estado épico da lenda. Contudo, a genialidade trágica de Sófocles manifesta-se neste momento. A revelação produz o dilema entre agir de alguma forma em benefício próprio ou seguir à risca seu destino traçado pelos deuses, Édipo escolhe o destino e submete-se a uma experiência de morte em prol do bem comum. Tamanho sacrifício satisfaz os deuses e o ideário moral grego,  justificando que Teseu o receba posteriormente em Ática, onde acaba por morrer.  O oráculo prevê que a terra onde ele repousasse seria abençoada pelos deuses (Grimal, 2008. 157) e Édipo recebe o culto digno dos heróis após sua morte.

BoJack, o anti-herói por deflexão

No século XIX, a palavra herói passa a ser usada tanto para designar o personagem trágico quanto o cômico. No final deste século, o herói perde o caráter exemplar e mítico, o determinismo social do naturalismo retira seu livre-arbítrio e o teatro do absurdo representa-o como desorientado e desprovido de aspirações (Pavis, 2011. 194). Neste contexto em que os valores associados ao herói clássico estão em baixa torna-se inviável ou constrangedor continuar usando o termo herói como sinônimo de personagem central, eis que nasce o termo anti-herói para denominar o protagonista que não cumpre ou contradiz o princípio heróico

Dito isto, o anti-herói pode se construir de inúmeras maneiras e não cabe a este texto examinar todas as formas em que ele se apresenta, mas sim analisar como o anti-heroísmo se expressa na personagem BoJack Horseman. Este se manifesta não como negação ou antítese do heroísmo, mas como deflexão multiforme da imagem heróica. Em outras palavras, BoJack é uma imagem distorcida do herói cercado por outras tantas imagens distorcidas de si mesmo. Sua personalidade foi moldada por representações deturpadas de heroísmo da mídia e uma moralidade duvidosa de sua família, como “uma cópia de uma cópia de uma cópia de alguém”, como o próprio personagem se define em dado momento. 

A construção da personagem se dá como uma sala dos espelhos de um parque de diversões, o protagonista está perdido dentre imagens que o desorientam. Seu trabalho como ator é dar vida a imagens de heróis disfuncionais. Seu amigo e rival Mr. Peanutbutter é seu duplo por oposição. A escritora Diane é contratada para escrever sua biografia e acaba por criar mais uma imagem de Bojack, .

Bojack é a deflexão do herói, pois cumpre todas as condições do princípio heróico de forma distorcida. Como ator de Hollywood, ele destaca-se das pessoas comuns e de certa forma pertence a um dos ciclos sociais mais altos de sua sociedade. Seu destino é livremente escolhido e se a sua vida pessoal não o torna um exemplo positivo, os papéis que ele interpreta na TV e no cinema servem como norte moral a milhões de pessoas. Por vezes parece ter um interesse altruísta em relação às pessoas, porém este altruísmo está sempre conectado e dependente de alguma forma a sua vaidade, desejos ou interesse próprio. É sem dúvidas o personagem central da narrativa, com maior dimensão e tempo de tela, porém a catarse não se dá exatamente através de suas ações, mas majoritariamente a partir da realização existencialista causada pela impotência do protagonista perante forças internas e externas. Ele é submetido a diversos processo iniciáticos ao longo da série, vivencia experiências transcendentais e esforça-se em busca de um renascimento, porém seu auto-controle é limitado e acaba vivenciando uma forma de padrão destrutivo, um eterno retorno a sua condição egoísta.

“ele está cansado de correr em círculos”

Assim como o herói trágico, Bojack comete diversas hamartias. Trái seu melhor amigo para evitar um escândalo que poderia prejudicar sua imagem, causa a morte da ex-atriz mirim com quem contracenava por overdose e quase comete o crime de pedofilia com a filha de uma ex-namorada da juventude. A culpa consome a personagem constantemente e por vezes ele tenta se reconciliar ou obter alguma forma de redenção, porém seus esforços são em vão ou acabam por esmorecer na própria vaidade e na necessidade de manutenção dos seus prazeres.

A jornada anti-heróica

A primeira temporada do seriado revolve em torno de uma trama central, que é a escritura do livro de memórias de BoJack. Como é comum neste tipo de ficção seriada, cada um dos personagens secundários é o pivô de uma trama secundária. Estas subtramas sempre envolvem o protagonista e se entrecruzam com a trama central, formando uma teia intrínseca de causalidades. Neste segmento irei descrever e analisar os acontecimentos mais importantes de cada episódio que pertencem diretamente a trama central ou eventos das tramas secundárias que evidenciam a construção da figura do anti-herói ou a questão do duplo.

Episódio 01

O episódio piloto serve como o chamado para a aventura. Neste caso a jornada de BoJack não é em alguma terra desconhecida, mas sim uma jornada interior, através das suas memórias e da sua psique. As primeiras cenas do episódio são contundentes em apresentar a personalidade egocêntrica de BH, o fato de que este vive da glória do passado e sua obsessão com a própria imagem. Estes três aspectos em conjunto são a força motor que o fazem querer se imortalizar em forma de autobiografia.  A primeira expressão do duplo surge logo nas primeiras cenas, quando BoJack, no momento que deveria estar escrevendo suas memórias, se embriaga reassistindo os episódios de Horsing Around.

Após ser pressionado por seu editor, BoJack concorda em organizar uma festa em sua casa para que possa conhecer Diane. Apesar de detestar a escritora antes mesmo de conhecê-la, BH e DN criam rapidamente uma conexão intelectual, pois ambos se identificam como figuras anti-sociais. O interesse amoroso de Bojack já é visível quando surge Mr. Peanutbutter e este revela que Diane é sua namorada. Esta cena, a última do primeiro episódio, manifesta um tema constante em relação ao duplo, através do “eu-temido que obstrui o amor por uma mulher” (Rank, 1971. 73).

Episódio 02

O segundo episódio funciona para a trama central como uma recusa inicial ao chamado, seguida finalmente da aceitação. Na primeira entrevista que Diane realiza para o livro, BH se recusa a dar detalhes sobre a sua infância e a relação com seus pais.  Ele parece confundir sua história pessoal com a sua imagem televisiva e pretende criar com o livro uma representação alegre e otimista, tal como seu antigo personagem. 

Neste meio termo BH se envolve numa polêmica com um veterano de guerra e se irrita profundamente com a ideia de que todos os soldados são heróis e devem ser tratados com reverência. Aqui é a primeira vez que a trama lida explicitamente com o tema do heroísmo e BoJack é enfático ao afirmar em uma entrevista que nem todos os soldados que serviram na guerra são heróis, que muitos inclusive devem ser “cretinos”. A situação trabalha com uma ironia fina, pois ao mesmo tempo que o posicionamento intelectual de BH pode ser visto como progressista e certeiro, ele mesmo ignora que seu status de celebridade o garante um nível muito maior de reverência injustificada. 

Após a resolução desta pequena trama, BH se demonstra indignado pois “ninguém quer saber a verdade”, então DN aproveita a situação e o convence a revelar os aspectos negativos de sua vida, seus defeitos e tudo mais.  

Episódio 03

No terceiro episódio a trama central é colocada de lado e ocorre a primeira hamartia de BH. Este erro se dá na forma de uma representação inversa e distorcida do complexo de Édipo. 

Após terminar um relacionamento, Sara Lynn passa a viver na casa de BH e os dois passam a representar uma estranha relação entre pai e filha. Com sérios problemas emocionais e vício em drogas, SL começa a reproduzir comportamentos destrutivos que são tolerados ou até incentivados por BH. Forma-se um paralelo interessante entre os dois “filhos” de BH, enquanto Todd se esforça para agradar e é desprezado, SL abusa cada vez mais de sua liberdade e recebe tolerância e aprovação. No clímax do episódio, SL afirma que BH não é seu pai e a cena culmina numa orgia envolvendo BoJack, Sara e Todd.

Neste episódio podemos perceber um padrão que se repete ao longo de toda a estrutura dramática. O protagonista, de maneira consciente ou inconsciente, tira vantagem ou sabota as pessoas próximas a si mesmo quando parece estar agindo em prol do outro. Este padrão se repetirá com praticamente todos os personagens.

Episódio 04

O quarto episódio é marcado pela introdução de um conceito de arquétipos opostos ou duplos largamente utilizado ao longo de toda a série. Ao mesmo tempo é retratada mais profundamente a relação de Bojack e Todd.

No início do episódio Mr. Peanutbutter classifica as personagens presentes entre Zoë ou Zelda, de acordo com as personalidades opostas das duas irmãs gêmeas, as filhas ficcionais de MP em seu extinto seriado. Esta dicotomia separa pessoas intelectualizadas que têm uma visão mais amarga da vida (as Zoës) e aquelas pessoas mais simples, sem grandes questionamentos, que acabam por ter uma personalidade mais alegre e otimista. BoJack e Diane são claramente Zoës, enquanto MP e Todd se encaixam no arquétipo de Zeldas.

Numa trama secundária, Todd compõe uma ópera rock. BoJack, pressionado por Diane ajuda-o a desenvolver este musical, até quando percebe que existe uma possibilidade real de Todd tornar-se bem sucedido e mudar-se do seu sofá. Com medo de acabar sozinho, BoJack sabota o projeto de Todd. Ele planeja um elaborado estratagema que envolve subornos e até a contratação de uma atriz para frustrar os planos do amigo.

Episódio 05

O quinto episódio enfatiza a relação de Diane com sua família, representada por sua apatia em relação a morte de seu pai, mesmo com o comportamento absurdo por parte de seus familiares. Em paralelo, Todd Lucra com a indústria das celebridades fazendo tours clandestinos na casa de BoJack, afirmando que seria a casa de um ator mais famoso.

A trama serve para desenvolver mais a personagem de DN, mas também revela ou reforça características de BH. Ao conhecer os irmãos de DN, o protagonista demonstra sua carência por relações fraternas. Ao mesmo tempo, quando toda a família de DN se volta contra ela por ser “muito importante” para eles, BH faz uma irônica defesa da amiga, humilhando ela para tentar provar que a família está errada.

O fato de BH ter encarado a morte de perto o faz ligar para seu antigo amigo, Herb Kazzaz, a quem ele descobriu estar com câncer terminal. Esta busca por reconexão ou redenção será abordada alguns episódios a frente.

Episódio 06

O sexto episódio é a expressão mais contundente de Mr. Peanutbutter como o duplo de BoJack na disputa com este o amor de Diane. A narrativa cuidadosamente expressa como ambos se portam de maneira oposta. Os rivais se utilizam de estratégias inversas para atingir o mesmo objetivo, porém partilham da mesma motivação egocêntrica. O amor que ambos sentem é uma expressão indireta do amor a si mesmo. O amor por sua subjetividade e por sua história, no caso de BH e o amor pela sua própria imagem e a sua representação televisiva, no caso de MP.

Episódio 07

Após ouvir a notícia do noivado de Diane, BoJack passa uma semana de bebedeira tentando chamar a atenção de PC e ao fim deste período torna-se fixado na ideia de assumir um romance com ela, mais uma vez motivado pelo seu medo da solidão, ou talvez para reproduzir aquilo que aconteceu com MP e DN. PC vê o gesto de BH com ceticismo. Neste ponto já conhecemos um pouco o protagonista e a série deixa cada vez mais claro o conceito anti-heróico como a eterna repetição de um padrão de comportamento ególatra e autodestrutivo que pouco a pouco deteriora todas as relações do protagonista.

PC cede aos apelos de BH e aceita sair com este para um encontro romântico, porém a  noite de ambos é interrompida por telefonemas. PC descobre que perdeu sua maior cliente e BH recebe uma mensagem de Herb, que diz que ele deve ir até sua casa caso tenha algo a dizer. BH parece voltar a realidade e abruptamente desiste do romance com PC, que após isso retoma as rédeas de sua carreira, ironicamente conseguindo o papel principal para BH interpretar Mr. Peanutbutter em um filme romântico a ser produzido sobre o roubo do “D” de Hollywood.

Episódio 08

O episódio inicia-se com alguns flashbacks mostrando o início da carreira de BoJack como um comediante fraco e inseguro. Herb é um comediante mais experiente e começa a ajudá-lo. Herb namora Charlotte, uma personagem chave para a jornada de BoJack. O flashback prossegue até uma festa na qual executivos de um canal se aproximam de Herb, enquanto BH se lamenta para Charlotte, pois acredita que nunca terá uma grande chance como aquela. Charlotte revela que vai embora de Los Angeles em busca de uma vida mais simples e provoca BH ao perguntar se ele teria se aproximado mais dela caso não namorasse Herb. Depois de mais uma elipse, Herb chama BH para o planetário, um local simbólico ao longo da série, para revelar que foi convidado para criar uma série e que exigiu que BoJack fosse a estrela. Os dois comemoram e Herb beija a boca de BoJack, que recua. A estrutura narrativa desta parte do episódio está toda desenhada para evidenciar o tamanho da dívida moral de BoJack, bem como o amor não correspondido de Herb. Os flashbacks prosseguem para mostrar a relação dos dois se deteriorando ao longo dos anos e por fim a pressão de uma executiva que leva BH a se calar em relação ao despedimento de Herb.

Nos dias atuais, a visita de BoJack começa com uma série de comentários passivo-agressivos de Herb, mas Diane é capaz de encontrar um denominador comum entre os dois, que divertem-se falando mal de um aparelho doméstico. O clímax do episódio se dá quando BH pede perdão a Herb, este se recusa e dá-lo e diz que ele terá que viver com aquilo que fez. O que se segue é a revelação do verdadeiro caráter do anti-herói, Herb diz que BH quer usá-lo como um objeto para sentir melhor e por fim, que apesar dele se achar o “bom moço”, não passa de um covarde e egoísta. O episódio termina com BoJack tentando dar um beijo em Diane e é rejeitado assim como o jovem Herb foi rejeitado por ele.

Episódio 09

O nono episódio mostra uma série de planos de BoJack para sabotar o casamento de Diane com Mr. Peanutbutter, que só ocorrerá em um ano. Os planos de BoJack são tão elaborados como aquele que utilizou para sabotar Todd, mostrando mais uma vez a repetição do seu padrão de comportamento ególatra. Desta vez, portanto, todos os planos aceleram ainda mais a realização do casamento, além de fazer com que Todd perceba a sabotagem que ele mesmo foi alvo, o que muda completamente sua atitude perante o protagonista.

Além disto, há um importante desenvolvimento na trama do livro. Constrangida com a situação, Diane diz que já tem material suficiente para escrever as memórias de BoJack, evitando assim os consecutivos encontros e possíveis investidas.

Episódio 10

O décimo episódio é um exercício excêntrico de metanarrativa e metalinguagem, mostrando os personagens envolvidos na produção de um filme sobre eventos de sua vida. BoJack interpreta o papel de Mr. Peanutbutter, numa versão alternativa dos acontecimentos.  Todd se aproxima do diretor e ambos começam a experimentar radicalmente com os princípios da narrativa cinematográfica, até que numa reviravolta surreal o filme se transforma em uma cesta de comida.

Em meio a essa grande crise identitária, Diane termina o livro e o envia para BH, sendo este um retrato duro e preciso, que expõe sem reservas todas as falhas de BoJack, a começar pelo título One Trick Pony (“pônei de um truque só”). Diane explica que o público irá se identificar com suas falhas, tornando-o mais humano. Ainda assim, BoJack é incapaz de aceitar este seu reflexo tão nítido, rejeitando a existência de mais este duplo, que ao seu ver seria uma mancha em sua imagem pública, seu único legado. BoJack quer que a representação de sua vida real seja tão límpida e amigável quanto o personagem fictício que o tornou famoso e amado. Neste ponto da narrativa, após uma sucessivas derrotas ao longo da temporada, Bojack novamente nega o chamado, tentando à todo custo manter-se protegido numa zona de conforto. Primeiro, BH ordena que DN reescreva o livro. Ao descobrir que ela vazou alguns capítulos do livro na internet, BH a demite mesmo em face de muitas reações positivas.

Episódio 11

O décimo primeiro episódio marca o clímax da primeira temporada e o momento mais intenso da jornada do anti-herói. Assim como na jornada do herói, BoJack experimenta um profundo mergulho de natureza espiritual, no qual encontra uma espécie de chave, não para o bem comum, mas a chave para sua própria felicidade.

Numa reunião com Diane e seu editor, BoJack afirma que é capaz de escrever um livro melhor que o de Diane em uma semana, que é o prazo final para que a publicação seja feita. Depois disso, BoJack se atrapalha com uma série de distrações até que chega o último dia e, desesperado, pede a ajuda de Todd e Sarah Lynn. Os três usam drogas para tentar escrever tudo em uma única madrugada. Porém, o uso indevido dos comprimidos e a mistura com álcool faz com que todos entrem numa incontrolável viagem psicodélica. Acompanhamos o delírio de BH, enquanto este vivencia cenas que revelam seus sentimentos por Diane e culmina com a visualização de uma possível vida ao lado de Charlotte, longe do mundo do entretenimento. BoJack delira com uma versão romantizada da paternidade, no qual só há alegrias na criação de sua filha imaginária e a sua relação com Charlotte parece perfeitamente harmoniosa. Esta chave é o motor da segunda temporada, quando BoJack irá tentar resgatar esta visão.

Episódio 12

O último episódio serve como um retorno a uma situação de relativa normalidade, bem como prepara algumas tramas para a próxima temporada. O anti-herói consegue em parte aquilo que desejava, sua imagem foi renovada e com isso ele vê a possibilidade de realizar um antigo sonho. Todavia o retorno é irônico, BoJack é obrigado e se deparar com uma imagem desagradável de si mesmo, tal como Dorian Gray que fita seu retrato com asco, mas o livro de BoJack não pode ser trancafiado tal como o quadro do conto, ao invés disso ele é acessível para milhares de pessoas, como produto que é. O eu-temido de BoJack é lucrativo e assim como Diane havia previsto, faz com que o público o veja com alguma empatia.

O episódio começa com uma entrevista televisiva de Secretariat, o cavalo de corrida que é o herói de infância de BoJack. O entrevistador lê uma carta que pertence a um pequeno BoJack, que lhe pergunta algum conselho sobre como enfrentar os problemas. A resposta de  Secretariat aconselha a criança a não deixar que ninguém o prenda, e que ele simplesmente corra sem parar, apesar do que acontecer, que ele nunca desista. É interessante perceber que por trás do viés motivacional da resposta, a verdadeira sugestão deste “herói” é que os objetivos individuais fiquem sempre acima de qualquer relação, amizade, família, tudo. A metáfora de correr é também dúbia, uma vez que se pode correr em direção a algo, bem como fugir de alguma coisa e bem parece que BoJack está sempre fugindo de seus reais problemas. O flashback avança para alguns anos depois, quando Secretariat suicida-se após a divulgação de um escândalo envolvendo apostas. Secretariat é um tipo de figura paterna, um exemplo para o BoJack criança e também podemos vê-lo como mais um dos duplos do protagonista.

O episódio termina então com uma visita de BoJack ao planetário, o mesmo lugar que marcou o início de sua carreira, lugar do qual se pode contemplar e cidade e da onde ele parecia contemplar a sua trajetória até então. Um fã o encontra, fala sobre o livro e lhe diz que ele é seu herói. BoJack finalmente conseguiu aquilo que tanto queria, ser conhecido e amado, mas a palavra herói parece o incomodar profundamente. Ao final, ele mesmo sabe que não merece este título.

Conclusão

Para além do visual caricato e colorido e por trás do humor ligeiro e muitas vezes sem graça de BoJack Horseman se escondem profundas reflexões sobre identidade, caráter e moralidade. Num mundo em que a imagem é um produto e as narrativas são uma commodity vorazmente consumidas todos os dias, qual é a influência das figuras midiáticas na formação do indivíduo? Se nosso comportamento é determinado pelo meio, até onde somos responsáveis por nossas próprias ações? Se um indivíduo possui inúmeras possíveis versões potenciais de si mesmo, porque é tão difícil experimentar mudanças substanciais em nossa conduta? Estas são algumas das perguntas colocadas de forma direta ou indireta ao longo da primeira temporada da série. Não há didatismo ou respostas claras, cabendo ao espectador levar consigo estes questionamentos.

A série distorce não somente a ideia de herói, mas também a própria representação midiática deste arquétipo, tanto no nível da construção narrativa através do uso da metanarrativa, quanto no nível do comentário satírico e metalinguístico em relação à indústria cinematográfica de Hollywood. É uma reflexão importante sobre o papel social e moral das narrativas audiovisuais e da indústria multi-milionária que as fabrica e vende.

A jornada anti-heróica define-se na série como um reflexo distorcido e incompleto daquela que conhecemos como a jornada do herói. BoJack se condena a viver um eterno retorno aos seus piores erros. Eu poderia afirmar que ele é incapaz de aprendizado, mas isso não é verdade. Ele é capaz de perceber suas falhas morais e de exercitar pensamento auto-crítico. Ele não é um ignorante, pelo contrário, é dotado de inteligência e muita capacidade intelectual. Durante a série parece ter cada vez mais consciência dos mecanismos que ditam seu comportamento. No fim das contas, esta é a maior punição e também a grande conquista da personagem: ter consciência de suas próprias falhas, mesmo que não seja capaz de corrigí-las ou compensá-las. Seu desejo de ser amado por todos dá lugar a uma incômoda consciência de seu caráter. Este anti-herói patético é a própria imagem de uma sociedade obcecada por narrativas distorcidas de si mesmo e/ou um conto de advertência sobre os perigos de uma vida voltada unicamente a satisfação dos prazeres, no qual o desejo de salvar unicamente a si mesmo destrói tudo ao seu redor.

Bibliografia

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Campbell, Joseph. 1968. The hero with a thousand faces. Novato: New World Library. 

Grimal, Pierre. 2008. Mitologia Clássica: Mitos, Deuses e Heróis. Tradução de Hélder Viçoso. Lisboa: Edições Texto & Grafia

Pavis, Patrice. 2011. Dicionário de Teatro. Tradução de J.Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo:  Editora Perspectiva.

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Schmidt, Joël. 1985. Dicionário de mitologia grega e romana. Tradução de João Domingos. Lisboa: Edições 70

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