Definir a catarse prova-se uma tarefa muito difícil, pois há inúmeras interpretações dadas por diversos autores. Aristóteles é conhecido por ser o masi antigo pensador ocidental a versar sobre tema, porém o livro de “A Poética” que conteria a explicação definitiva sobre a catarse poética foi perdido. Em “Política”, ao destacar a importância da educação musical, o filósifo descreve de forma sucinta a catarse causada pela música:
A algumas almas sucede serem tomadas de forte emoção. Isso acontece, em maior ou menor grau, a todas. São tomadas, por exemplo, de piedade e de temor, além de entusiasmo. Sob influência dessas emoções, alguns são possuídos, e nós os vemos, sob influência de melodias sacras, quando fazem uso das melodias que colocam a alma fora de si, restabelecidos como se tivessem recebido tratamento medicinal e purgação (catarse).
A partir deste trecho, é possível considerar que a catarse é um evento psicológico e emocional capaz de transformar a maneira como o sentimos a nossa existência, ou em outras palavras, um momento de alteração ou elevação da consciência. Usando o termo original, a emoção experimentada é grande o suficiente para expandir a alma, revigorando nossos sentidos. Os termos purgação e sublimação também se aproximam desta noção. Não é a toa que o filósofo compara a experiência artística com tratamentos medicinais. O sentimentos de grande tristeza, raiva, alegria, indignação, o choro, a risada, entre tantos outros efeitos causados pela arte parecem mesmo “queimar” ou “limpar” a nossa alma, trazendo uma sensação de renascimento ou reconforto. Hoje a ciência comprovou que o estado hormonal do sistema nervoso se altera ao sermos expostos a uma obra de arte e que de fato a arte tem potencial terapêutico, como um tratamento integrativo para doenças de todo o tipo.
Outras interpretações adicionam sentido ético a catarse, como um “aprendizado das virtudes”, que pode ter sua ênfase colocada no “sentir as emoções da maneira correta e com a intensidade correta” (uma espécie de ‘educação sentimental’). Há ainda interpretações que relacionam a catarse com um processo de clarificação intelectual.
Numa tentativa de conciliar estas diversas interpretações, me vejo impelido a definir a catarse “primordial” como aquela que se dá no reino das sensações e do emocional, uma descarga de sentimentos de duração variável, mas relativamente curta, como um orgasmo. Esta catarse pode então ser a causa de futuros processos emocionais, intelectuais e de ordem moral. Este “processamento” da catarse pode se alongar e/ou retornar ao longo dos próximos minutos, horas, dias, meses ou anos. É um processo que permeia o consciente, mas principalmente o subconsciente de quem o vivencia. O termo pós-catarse, cunhado por Panayiotis Neufelt, traz esta necessária expansão do que conhecemos como processo catártico, assumindo que a experiência se alonga como um “ponto em aberto” que termina finalmente numa forma de aceitação.
Pós-catarse é o espelhamento de um processo de purificação, a aceitação ou compreensão de uma ação ou resultado que ocorreu anteriormente, mas que foi revelado espontaneamente no subconsciente de uma pessoa (sujeito-personagem), afetando sua comportamento agora. (…) O processo de Pós-Catarse termina com a aceitação e inclusão de algo ou alguém.
Neste sentido, me inclino a afirmar que a catarse se aproxima da ideia de trauma, como um evento de alta intensidade que marca a subjetividade de quem o experiencia de forma prolongada. Assim como no trauma, os efeitos subjetivos da catarse são observáveis através de sentimentos e mudanças de comportamento. Talvez a diferença primordial entre um e outro seja a carga de valor: se o trauma é visto como uma experiência predominantemente destrutiva, a catarse é vista com olhos positivos, como uma experiência de cura ou construtiva no sentido moral.
Numa sociedade que consome cada vez mais narrativas audiovisuais, me parece fundamental compreender a função social da catarse e mais, os efeitos da acumulação destas experiências ao longo dos anos. Para o roteirista-autor, fica a provocação: qual é o efeito pós-catártico que você pretende atingir com suas narrativas?