Escrevo Filmes

Os 10 Recursos Narrativos que Todo Roteirista Precisa Conhecer

Os 10 Recursos Narrativos que Todo Roteirista Precisa Conhecer

Quando assistimos a um bom filme, nos sentimos imersos na estória, torcendo pelos personagens e ansiosos para descobrir o que acontecerá em seguida. Mas o que faz um roteiro ser envolvente e emocionante? Roteiristas e autores usam recursos narrativos, verdadeiras ferramentas do trabalho criativo, para prender a atenção do público e manipular as suas emoções. Neste artigo, exploraremos alguns dos principais recursos narrativos utilizados em filmes, livros e séries de sucesso e como eles afetam as emoções e expectativas.

CONTRASTE: O contraste é a mãe de todos os recursos narrativos e pode-se dizer que é uma condição natural de qualquer narrativa.  A melhor maneira de expressar ou transmitir uma determinada situação ou sentimento é mostrar também o seu oposto, criando uma referência ou ponto de comparação para o público.

MISTÉRIO: curiosidade – o público sabe menos que as personagens. O mistério consiste em sugerir informações detidas por personagens as quais o público não têm acesso. Quando o público tem consciência de que não sabe algo importante e sente a necessidade de saber, o recurso está sendo executado com sucesso.  O mistério pode tratar de acontecimentos do passado ou de situações correntes. Para reforçar o efeito de curiosidade e contraste, o autor pode estimular a crença em fatos falsos enquanto esconde os verdadeiros.

IRONIA DRAMÁTICA: preocupação – o público sabe mais do que as personagens.  A revelação de algo que o personagem não sabe põe o espectador numa posição de superioridade e isto se traduz num sentimento de participação. Após esta revelação a tensão dramática é mantida em um patamar alto até o momento em que o personagem descobre aquilo que já sabemos. A ironia dramática funciona quando o público se vê tenso, antevendo possíveis reações da personagem ao descobrir aquilo que ele já sabe.

SUSPENSE: curiosidade e preocupação – o público e as personagens sabem as mesmas informações sobre uma situação tensa, não resolvida. Nesse relacionamento, sentimos empatia e nos identificamos com o protagonista porque dividimos o mesmo conhecimento, mas ninguém sabe “no que isso vai dar”.  Aqui, ao contrário do que ocorre no mistério, a curiosidade se dá em relação ao futuro.

SURPRESA: susto, desorientação – a surpresa se opõe ao suspense, pois é uma revelação súbita de uma informação e / ou de um acontecimento. Ainda que saibamos as mesmas informações que os personagens, não há tempo para preocupação, como ocorre no suspense. Ao invés disso, o público precisa de alguns instantes após a surpresa para “digerir” este acontecimento, entender seu significado e as consequências para a estória.

CONSTRIÇÃO DE TEMPO: tensão, ansiedade – quando temos uma meta sem prazo definido, tudo parece mais fácil, porém, se o tempo é curto, a preocupação se instaura imediatamente. Estabelecer horários, compromissos, contagens regressivas, entre outros, é uma forma muito eficaz de incutir tensão, uma vez que há um risco evidente e palpável para a personagem.

PISTA E RECOMPENSA: curiosidade, raciocínio, antecipação – uma pista é um artifício preparatório (uma fala, uma ação, um gesto, um objeto, etc.) que traz uma informação importante sobre algo que acontecerá no futuro, de forma indireta. A pista pode passar desapercebida ou causar um certo estranhamento, pois não é compreendida completamente. É possível reforçar ou repetir a pista ao longo da estória. Mais para frente, geralmente em um ponto de virada, surge a recompensa, a confirmação daquilo que foi preconizado e a pista adquire um novo significado. Quando bem aplicada, a pista gera alguma suspeita no público, que prevê os acontecimentos futuros, o público então “liga os pontos” e experimenta satisfação.

BRECHA: decepção, frustração – a brecha é um recurso de quebra de expectativa que ocorre quando o personagem realiza uma ação visando solucionar determinado problema e acaba por piorar a sua situação. A personagem que parecia estar prestes a resolver a questão ou conflito, coloca-se involuntariamente muito mais distante da resolução. A brecha pode ocorrer por uma falha na abordagem escolhida pela personagem, por um excesso ou falta de intensidade na sua ação ou até mesmo por uma coincidência que torna sua abordagem fútil.

PREPARAÇÃO E CONSEQUÊNCIA: reflexão e antecipação – um momento de preparação é aquele em que a personagem e o espectador se preparam para um momento dramático que está por vir, contemplando a sua importância e possíveis desenvolvimentos. Depois do momento decisivo pode se construir um momento de consequência, quando se permite processar um evento imediatamente anterior, racional e emocionalmente. Em ambos, o ritmo costuma ser desacelerado e o tom poético das imagens e sons é usado como apelo direto às emoções do público.

FALSA PREPARAÇÃO: antecipação e frustração – Este recurso pode ser considerado como uma variação da brecha, ou uma preparação por contraste, em que estimulamos no público uma expectativa emocional oposta aos efeitos que o próximo momento provocará. 

ANÚNCIO E ELEMENTOS DO FUTURO: antecipação – anúncio é a indicação de uma experiência que um personagem deseja e/ou pode vir a ter. O anúncio pode vir como uma afirmação feita através de diálogo, notícias, cartas e mensagens em geral. O anúncio é feito de forma deliberada por alguém, que está direta ou indiretamente afirmando uma intenção, motivação ou objetivo. Mas nem sempre o anúncio é feito de forma consciente ou racional, aí que entram os elementos do futuro: sonhos, profecias, maldições, visões, pressentimentos, premonições, etc. Enquanto o anúncio trabalha com intenções, elementos do futuro se baseiam em esperanças e medos das personagens. Ambos nos fazem esperar e antecipar o que está prestes a acontecer.

Os recursos narrativos são fundamentais para criar histórias envolventes que prendem a atenção do público e geram um senso de empatia e investimento emocional nas personagens. Cada um desses recursos tem um efeito específico sobre o espectador e a escolha do recurso certo pode ser a diferença entre uma narrativa mediana e uma inesquecível. Se você é um aspirante a roteirista ou simplesmente um amante de cinema e séries, esperamos que este artigo tenha sido útil e inspirador para você.