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Como escrever um filme triste – Análise de A Baleia (The Whale), 2023

A Baleia é um filme patético. Mas calma, isso não tem significado necessariamente negativo. Pathos é um termo grego que remete a sentimento, sofrimento. É uma técnica usada na escrita de teatro e cinema para comover o público. Uma cena patética é uma cena muito emocionante e, se você assistiu ao filme, sabe que ele está repleto de momentos assim. Neste vídeo eu vou analisar os recursos narrativos usados pelo roteirista Samuel Hunter que fazem de A Baleia uma experiência tão emocionante que te faz chorar do início ao fim. 

O filme é a adaptação de uma peça teatral escrita pelo próprio roteirista, por isso ele carrega uma característica muito teatral: A Baleia é um drama de câmara, uma narrativa que se passa toda num único espaço com poucas personagens. Isso se traduz numa experiência claustrofóbica e sufocante, o que é reforçado pelo formato estreito da tela que parece esmagar o protagonista. O público é colocado muito próximo a personagem e esse é o primeiro passo para gerar identificação e empatia.

Escrever um filme de câmara é muito tentador, eles são baratos de fazer, mas por outro lado, é um enorme desafio de escrita: o roteirista não tem pra onde fugir, não tem um outro mundo pra personagem descobrir ou percorrer, tudo acontece no mesmo lugar. Por isso, é um tipo de trama que corre um risco imenso de ficar muito chato, monótono. Sabendo disso, o roteirista introduz a tensão dramática logo na primeira sequência do filme, com o ataque cardíaco do protagonista Charlie. 

A iminência de uma catástrofe mantém o público conectado à estória. Nós sabemos, assim como o personagem, que ele pode morrer a qualquer momento, isso é suspense. E pra esse suspense funcionar, é criada uma escapatória: Charlie pode viver se for tratado num hospital, mas ele se nega. Está aí o conflito central, uma tensão gritante entre a vida e a morte.

Já que existe uma limitação criativa que proíbe os deslocamentos físicos, o roteirista se vale das passagens de tempo para criar ritmo e dinâmica. A história se passa no intervalo de cinco dias. Cada dia começa com a banalidade do trabalho do protagonista e parte para uma série de visitas, ou intromissões, que as outras personagens fazem. Esse ciclo de dia e noite, a pequena rotina que o autor constrói cria uma dinâmica: cada dia é um capítulo no qual as questões vão se revelando e desenvolvendo. 

E quando eu falo de questões, eu me refiro ao passado que vem à tona. Esta é uma convenção dos dramas de câmara que é muito bem utilizada aqui. O protagonista é consumido pela culpa e pelo luto, ele é consumido pelo passado, e boa parte da narrativa é expor ao público os motivos pelo qual as coisas chegaram naquela situação. Numa análise mais profunda, não é só ele: todas as personagens estão presas de alguma maneira ao passado e tem muita dificuldade em se libertar. 

Falando nisso, o desenvolvimento de personagens é quase inexistente, eles pouco mudam e os conflitos praticamente não se resolvem. Mas apesar dessa passividade das personagens, elas são muito bem construídas, Charlie é profundamente complexo: é um otimista, que faz questão de ver o lado incrível e maravilhoso das pessoas ao seu redor, mas ao mesmo tempo carrega um princípio auto-destrutivo incontrolável. Ele se odeia, mas vê todo mundo com bons olhos. Assim como ele, todas as personagens tem uma grave contradição interna e, prestem atenção:todos nutrem um misto de amor e repugnância pelo protagonista. 

O embate entre todos esses sentimentos é constante, não existe um único segundo de filme em que as personagens não estejam se debatendo com suas próprias emoções ou entre si. Por fim, A Baleia é como uma boa redação, desenvolve de forma exemplar seu grande tema que é: a salvação. A conclusão é a mais desoladora e honesta possível: ninguém é capaz de salvar ninguém, e é diante dessa verdade insuportável que o público chora e purga a iminência da própria morte, afinal, apesar de maravilhoso, nem o cinema é capaz de nos salvar. 

Texto: Pedro de Barros