Escrevo Filmes

O Tiro no Pé de Wandinha

Wandinha, a nova série da Netflix que ressucistou a Família Addams, é divertida e cativante, mas atenção: os roteiristas deram um tiro no pé. A primeira temporada foi um sucesso, mas a série vai ter muita dificuldade de permanecer relevante daqui pra frente.

Wandinha é a mais nova e belíssima adaptação das personagens criadas por Charles Addams para a revista The New Yorker desde os anos 30.

O humor do Charles sempre foi irônico, ácido e às vezes mórbido. Os seus cartuns eram geralmente um única imagem com uma fala que servia de gatilho pra piada. Não havia estórias desenvolvidas com início, meio e fim ou continuidade. É puro humor de situação que coloca pessoas normais em meio a situações bizarras.

Até que em 1938, provavelmente influenciado pelos filmes de terror icônicas daquela década, Charles resolveu inverter a lógica: Colocando um família sombria e bizarra em situações cotidianas. Essa é a alma da Família Addams, uma anti-família, uma sátira do sonho americano e das famílias perfeitas dos subúrbios, um recurso mórbido de humor fino.

Nenhuma das personagens tinha nome, mas foram ganhando popularidade com o público e retornando ocasionalmente, num total de 58 cartuns dessa família tão estranha e carismática.

Foi somente na adaptação para a televisão de 1964 que as personagens ganharam nomes e contornos mais definidos. Boa parte do que conhecemos como a identidade da franquia, inclusive o nome “Família Addams” e o tema musical que todo mundo conhece vem desta produção.

Desde os anos 60, todas as adaptações tiveram que lidar com o mesmo problema: como transformar as situações isoladas dos cartuns em estórias estruturadas; como converter caricaturas em personagens?

A solução tem sido basicamente a mesma desde os anos 60: criar um elenco a partir do contraste entre “os normais” e “os monstros” e elaborar tramas que enfatizam o conflito entre esses dois mundos: os normais se espantam com a morbidez dos monstros e os monstros repudiam os absurdos cotidianos da dita normalidade. E por fim, pra fugir do caráter estático dos cartuns, criar arcos de personagem que tragam mudanças significativas e permanentes.

O primeiro Longa-metragem feito com a família em 91 teria o Tim Burton como diretor, mas ele saiu do projeto pra dirigir Batman e os produtores tiveram que “se contentar”com Barry Sonnenfeld, o fotógrafo dos irmãos Coen que estreava como diretor… Mas dois roteiristas que já tinham trabalhado com Burton continuaram no projeto: Caroline Thompson de Edward Mãos de Tesoura e Larry Wilson de BeetleJuice.

Esses dois roteiristas criaram uma premissa única e tão bizarra quanto a própria família: Um impostor se passa por um irmão desaparecido há 25 anos para infiltrar a casa dos Addams e roubar sua fortuna, mas ao longo da tentativa de golpe o brutamontes vai se afeiçoando a família até que descobre que ele era de fato o irmão desaparecido que sofria de amnésia. 

Essa não é uma solução óbvia de roteiro, pelo contrário, é uma idéia bastante original e sofisticada que cria uma tensão constante e permite que o humor de situação típico da família pegue carona com um conflito central com risco altíssimo e muitas complicações.

Já o segundo filme… tem problemas. Mais uma vez alguém de fora se infiltra para roubar a fortuna da família – agora uma “viúva negra” quer casar com o Tio Chico…. Apesar de ter bons momentos, o filme soa como uma cópia mal feita do primeiro e o roteiro só se salva pelo aspecto de jornada dupla, com Wandinha e Feioso sendo obrigados a ir para um acampamento de férias cheio de crianças “normais”.

O filme não chega aos pés do primeiro. O novo roteirista Paul Rudnick, que se encaixa tão bem em “Mudança de Hábito”, não acertou a mão, não soube fazer humor inteligente, caiu em piadas de mal gosto, repetiu a fórmula e o filme não fez o mesmo sucesso de bilheteria.

Já deu pra ver que o material é rico, mas não é fácil de trabalhar. Todos os personagens da Família Addams são caricatos e previsíveis, Wandinha não é diferente.

A versão interpretada por Christina Ricci nos anos 90 apostou no tom ríspido, inflexível e ácido, um hiper-exagero da personalidade de qualquer pré-adolescente que elevou o papel a um dos ícones da cultura pop. Foi uma abordagem inédita para a personagem, Mas a verdade é que Wandinha tem um papel secundário de alívio cômico no primeiro filme e mesmo quando ganha sua própria subtrama no segundo, a trama central gira em torno do casamento do Tio Chico.

Então agora a Netflix faz de Wandinha a  anti-heroína e protagonista absoluta de uma série que leva o seu nome. É preciso transformar uma personagem caricata em alguém pelo qual precisamos torcer e acompanhar.

Apesar de Tim Burton assinar a direção de quatro episódios, nenhum dos roteiristas é parceiro dele, ao invés disso a sala de roteiristas aposta em talentos que trabalharam em séries como “Smallville” e “Gossip Girl”.

Então, como eles se saíram?

A primeira sequência é triunfante e profética. Wandinha está isolada; tem senso de justiça; tem visões sobrenaturais; é cruel e vingativa. Uma vingança sem remorso e bem humorada. A violência cartunesca e o senso de justiça nos compele a adorar a personagem que não mede esforços para conseguir o que quer… Aí é que começam alguns problemas…

Na próxima cena, Mortícia e Gomez levam a filha para Escola Nunca Mais, uma escola exclusivamente para renegados, montros, feiticeiros, bruxas e etc, um conceito um tanto desgastado…

 Se o contraste entre normais e monstros é a chave para os conflitos, uma escola só de monstros não tem como funcionar. E, não funciona. A escola parece uma colagem de clichês tirados de outras séries e para não tirar o holofote da protagonista, o tom de estranheza dos outros alunos é muito baixo, eles são absolutamente normais perto dela… Os roteiristas poderiam ter feito exatamente o contrário, alunos tão estranhos que fizessem a Wandinha parecer normal… Ou melhor, dividir a escola entre alunos normais e renegados… isso sim seria criaria tensão, competição e complexidade para o ambiente escolar.

Feioso não vai pra NeverMore e esse é outro grande erro de roteiro da série. A presença do irmão mais novo seria um ponto de referência para a nossa anti-heroína, a relação entre os irmãos poderia se desenvolver, gags clássicas poderiam aparecer de vez em quando e o Feioso seria capaz de trazer outro lado da personagem, que tanto faz falta que foi preciso criar uma personagem para cumprir justamente esse papel.  Desculpa menino das abelhas, mas eu te substituiria pelo Feioso sem pensar duas vezes. Sem falar que o Feioso poderia ter seu próprio núcleo de colegas, com cenas próprias trazendo um respiro necessário da personagem.

Wandinha então passa todo o primeiro episódio reforçando o seu isolamento: ela quer fugir da escola porque não quer ser igual aos pais, despreza a colega de quarto, desafia a menina popular para um, Foge da sessão da terapia, briga com três garotos no café… Um objetivo postiço que cria tensão até chegar o conflito central da temporada, o mistério sobre a identidade do monstro que está matando pessoas na cidade.

O objetivo de Wandinha muda, mas sua abordagem não. Ela é intransigente na sua maneira de lidar com os outros, isso em si não é um problema, mas o roteiro falha em servir o público de estímulos diferentes e bate tanto na mesma tecla que as tiradas irônicas e inteligentes logo se tornam repetitivas e previsíveis…

Nas adaptações anteriores, cada personagem tinha as suas próprias gags… o romantismo exacerbado de Gomez, O tom sombrio e suave de Mortícia, as brincadeiras masoquistas de Feioso, a monstruosidade bruta e debochada do mordomo e é claro… a casa! Toda a casa da família Addams funciona como um personagem extra, um espaço vivo que cria situações e dá o tom das cenas…

Mas aqui, não temos nada disso… A família mal aparece e nunca vemos a casa. Pelo menos temos a presença constante d´A Coisa, A mãozinha, que não por acaso rende algumas das melhores cenas da série.

De todo o elenco, somente três personagens tem subtramas próprias: Enid não consegue virar lobo e quer namorar o Ajax, duas traminhas bem clichê que não tem grandes desenvolvimentos. Tyler tem uma relação difícil com seu pai, uma trama interessante que poderia ser mais explorada. A mãe de Bianca, a rainha da escola, tem uma conexão com uma seita. Isso é mostrado numa única cena e não faz diferença nenhuma nem pra personagem nem pra trama central. No mais, nenhum personagem tem qualquer objetivo ou conflito que não esteja diretamente ligado ao mistério do monstro. O Xerife quer descobrir quem foi, a diretora quer proteger a reputação da escola… Até o triangulo amoroso entre Wandinha, Xavier e Tyler está conectado ao mistério.

A falta de originalidade e de profundidade das personagens secundárias, somada a intensa repetição de uma protagnista que não varia nem alterna suas emoções me fez quase desistir da série por volta do terceiro episódio…

E é aí que entra o elemento de escrita mais original desta adaptação que ao meu ver, salvou a primeira temporada: A trama de investigação sobrenatural. O mistério que se cria a redor do monstro é bem construído, trabalha com falsas pistas, muitas viradas e um final surpreendente. A Wandinha detetive, ao contrário da Wandinha aluna, é falha, como todo personagem deve ser, ela comete erros e se arrepende deles.

A certeza inabalável e frieza da personagem deixam de ser um trunfo e passam a ser um defeito e um obstáculo para que ela atinja seus objetivos ,ao longo dos últimos episódios, as amizades que ela despreza e usa como ferramentas da investigação se afastam. Então, finalmente, ela aprende e evolui. E num esforço coletivo os alunos conseguem derrotar um monstro, um morto-vivo e a pessoa que arquitetou tudo. Um final feliz com direito até a um… abraço!

O problema é que agora a série tem uma coleção de personagens pouco desenvolvidos, já ficou claro que a trama de mistério vai se repetir na próxima temporada e é muito provável que a formule fique cansativa. Mas talvez, a escrita aposte numa variedade maior de tramas, mostre mais dimensões da protagonista e desenvolva os outros núcleos. O mistério não precisa ser todo resolvido de uma tacada só, ele pode se desenrolar aos poucos, criando mais dúvidas, mais curiosidade. Eu estou torcendo pela renovação da série para uma segunda temporada, mas tenho medo que a nossa Wandinha sofra de uma… morte prematura.