Diferente de Platão, Aristóteles define o belo a partir da realidade objetiva, deixando de lado um ideal imutável para perseguir algo concreto, capaz de mudar e evoluir. Esta noção aristotélica do belo está estritamente ligada a noções matemáticas e geométricas aplicadas a forma. Em relação ao corpo humano, Aristóteles afirma que “o belo parece ser uma certa simetria dos membros” . Ele afirma também que “ As principais espécies do belo são a ordem, a simetria e a definição”, ou seja, há três formas semelhantes de manifestação do belo. Definir e compreender estes três termos é certamente a chave para acessar o significado do belo de forma mais ampla e profunda.
A relação de ordem na matemática é aquela que, dentro de um conjunto, é capaz que criar correlações entre elementos, atribuindo a eles determinados valores binários, tais como “maior e menor”, “anterior e posterior”, etc. Em relação a uma obra de arte, que é em maior ou menor grau uma representação do mundo, estas relações binárias se expandem, podendo se referir a “luz e sombra”, “vida e morte” ,”calor e frio”, “são e insano”, entre outras tantas.
A simetria é uma relação de paridade, uma correspondência de forma e tamanho das partes de um todo. É um princípio observável na natureza quando determinado elemento encontra-se em estado harmônico. É inevitável notar que elementos, sistemas e organismos caóticos tendem a assimetria. Aqui reside o princípio que aproxima o belo de valores positivos, como o bom, a vida, o agradável, diferenciando o belo do grotesco ou do disforme, que por sua vez assume toda a sorte de valores negativos, como o mal, a morte e o desagradável, respectivamente.
A terceira e última espécie de belo segundo Aristóteles é a definição, aquilo que diz respeito aos atributos do objeto retratado. Para ser definido, o objeto artístico deve portanto ser capaz de exibir da essência de algo. É interessante notar que esta é a única espécie de belo que não diz respeito a conceitos matemáticos, mas sim filosóficos. Uma vez que Aristóteles considerava a arte como uma filosofia produtiva, faz todo o sentido que o belo seja imbuído de um caráter revelador de algum tipo de verdade.
O belo então pode ser definido como uma característica da forma, composta como um conjunto harmonioso, que produz relações de ordem, detentor de relativa simetria e capaz de exibir a essência do representado. Os conceitos matemáticos aplicados a esta noção não são arbitrários ou aleatórios, mas tem sua origem na observação dos padrões da natureza: os corpos celestes, formações minerais, fenômenos meteorológicos e a própria constituição de toda a forma de vida. Por fim, o belo não se limita a propiciar uma sensação agradável ou uma fruição estéril da forma, mas é também uma ferramenta de compreensão do mundo.
Bibliografia
GAZONI, Fernando, “A poética de Aristóteles: tradução e comentários”, São Paulo, 2006
COHEN, S. Marc, “Aristotle’s Metaphysics”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2012 Edition), Edward N. Zalta (ed.)