Escrevo Filmes

Uma reflexão sobre a Aura da obra de arte

Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, Benjamim afirma que a obra se arte, uma vez reproduzida, perde parte de sua existência única, ou como ele diz, seu “aqui e agora”, que ele descreve se apoiando em dois conceitos: duração material e testemunho histórico.

Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra. E nessa existência única, e somente nela, que se desdobra à história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou. Os vestígios das primeiras só podem ser investigados por análises químicas ou físicas, irrealizáveis na reprodução; os vestígios das segundas são o objeto de uma tradição, cuja reconstituição precisa partir do lugar em que se achava o original.

Ao analisar este trecho tenho a impressão que a preocupação expressa pela autor se dá principalmente no caráter material do objeto de arte como um “pedaço da história”. Afirmo isto pois nele nada se afirma sobre como a experiência geral da obra de arte, ou seu conteúdo, é transformado pela reprodução. Ao invés disso, o texto enfatiza o valor da obra de arte como um objeto capaz de nos transportar ao passado, ou em outras palavras, em seu aspecto de memorial.

Mais adiante o autor introduz o conceito de autenticidade, resumido na citação abaixo:

Mesmo que essas novas circunstâncias deixem intacto o conteúdo da obra de arte, elas desvalorizam, de qualquer modo, o seu aqui e agora. Embora esse fenômeno não seja exclusivo da obra de arte, podendo ocorrer, por exemplo, numa paisagem, que aparece num filme aos olhos do espectador, ele afeta a obra de arte em um núcleo especialmente sensível que não existe num objeto da natureza: sua autenticidade. A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde. Sem dúvida, só esse testemunho desaparece, mas o que desaparece com ele a autoridade da coisa, seu peso tradicional.

O conceito de aura permite resumir essas características: o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é sua aura.

A aura é então a noção ou a sensação de que se está vivenciando uma experiência única e exclusiva em relação a um objeto artístico também único. Esta sensação está ligada ao conceito de autenticidade do objeto artístico. Aqui o autor confirma que a questão da aura está sempre ligada à materialidade do objeto, e afirma ainda que a reprodução faz desaparecer a autoridade e o peso tradicional da obra.

É mais adiante no texto que Benjamin aborda a aura da obra de arte em relação a experiência vivenciada pelo espectador e a relaciona com o caráter ritualístico da arte. O culto, antes de natureza religiosa, torna-se agora o culto secularizado ao belo.

O culto foi a expressão original da integração da obra de arte no seu contexto tradicional. Como sabemos, obras de arte mais antigas surgiram ao serviço de um ritual, primeiro mágico e depois religioso. É, pois, de importância decisiva que a forma de existência desta aura, na obra de arte nunca se desligue completamente da sua função ritual.Por outras palavras: o valor singular da obra de arte “autêntica” tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro. Este, independentemente de como seja transmitido, mantém-se reconhecível, mesmo nas formas profanas do culto da beleza, enquanto ritual secularizado.

É interessante notar que a função ritualística da obra de arte “autêntica” quase que independe de seu conteúdo. Certamente o manuscrito original de uma obra de Shakespeare terá uma carga emocional e ritualística poderosa, mas pela sua duração material e a possibilidade do testemunho histórico citados por Benjamim, não pelo seu caráter como obra de arte. Não é preciso sequer ler o manuscrito original de Shakespeare para cultua-lo, estar em sua presença já é suficiente. O objeto na sua materialidade, por ter sido manipulado fisicamente por um autor consagrado, torna-se objeto de culto. Quando experimentamos o culto a uma reprodução, o objeto de culto não é o meio da reprodução em si (ou sua matéria-prima), mas aquilo que ela representa, aquilo que ela torna presente.

Concluindo, creio que a aura de que Benjamim se refere ao valor histórico da obra de arte e ainda pode ser vivenciada quando nos deparamos com pinturas e esculturas originais nos museus. A noção de que aquele conjunto de átomos atravessou os séculos, passando pela mão de um artista imortal para por fim refletir sua luz às nossos olhos torna a experiência muito poderosa. Entretanto, este fato não enfraquece ou coloca de lado o caráter ritualístico das obras de arte que dependem inteiramente de sua reprodutibilidade para atingir o público. Ao invés disso, estas novas formas de arte deixam de lado a materialidade para dar lugar a virtualidade do objeto de arte. Quando um fotógrafo cria uma fotografia digital, por exemplo, a materialidade sequer existe. A obra de arte passa a ser uma matriz, infinitamente reprodutível e transformável. Esta não deixa de exigir as habilidades técnicas e humanas de um artista para a criação de uma obra capaz de evocar o belo e acarretar catarses, sendo tão importante historicamente como qualquer outra obra de arte, reprodutível ou não.

Bibliografia

BENJAMIM, Walter, “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, 1955